Um Supremo Desencontro

Num país em que as manhãs começam com escândalos e as noites terminam com decisões monocráticas, a democracia — essa senhora cansada de ser puxada pelo braço — tenta se equilibrar entre o plenário do Supremo e os grupos de WhatsApp que berram em caixa alta.

O Supremo Tribunal Federal, outrora guardião da Constituição, hoje veste toga e armadura. Não faltam ministros com perfil de gladiador, discursos de tribuno romano e votos que parecem editoriais disfarçados. Sob a alegação de proteger a República, o STF entrou em um duelo político sem luvas: persegue, investiga, bloqueia, censura — com o tom severo de quem parece mais disposto a doutrinar do que a julgar.

Enquanto isso, do outro lado da praça, a direita — essa entidade multifacetada, que vai do empresário liberal ao velho coronel de interior — grita perseguição. “Liberdade de expressão!”, bradam, como se todos os seus excessos coubessem nesse guarda-chuva. Há quem confunda opinião com difamação, crítica com sabotagem, meme com golpe.

Mas há também ali quem tenha razão. Porque quando a lei começa a servir de lança contra adversários políticos, e não de escudo para o cidadão comum, é sinal de que algo se perdeu no caminho. O problema é que os extremos se alimentam mutuamente, e o centro — essa terra em extinção — vai virando um vazio perigoso.

A crise no STF é uma crise de legitimidade. Não jurídica — pois toga se veste com formalidade —, mas moral. O povo, do alto de sua confusão cívica, já não sabe mais se a Suprema Corte defende a Constituição ou apenas seus próprios limites de tolerância ideológica.

O Brasil hoje é um teatro de absurdos, onde os ministros viraram protagonistas de um drama institucional que mistura vaidade, paranoia e um toque de censura preventiva. Cada decisão, uma manchete. Cada silêncio, uma suspeita. A Justiça deixou de ser cega — e agora parece mirar só para um lado do campo.

É claro que há abusos à direita. Mas o Estado Democrático de Direito não se defende com censura seletiva, tampouco com inquéritos infindáveis. O STF, se quiser manter a honra de sua história, precisa ser mais Corte e menos Cortejo.

Do contrário, corremos o risco de transformar a política em tribunal, e o tribunal em palco. E quando a Justiça vira espetáculo, quem perde é sempre o público.


Carlos de Castro 

consultor político

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