Crônica: O Berço Esplêndido da Miséria
Deitado eternamente em berço esplêndido, o povo brasileiro sonha. Sonha com o dia em que o salário vai dar até o fim do mês, em que o hospital público vai ter médico, em que a escola vai ensinar e o político vai cumprir o que promete. Mas enquanto sonha, o tempo passa — e o país dorme.
Somos uma terra que Deus fez de propósito com generosidade: ouro, diamantes, petróleo, nióbio, um sol que brilha o ano inteiro e um solo que tudo dá. O Brasil poderia ser um império da fartura, um exemplo de prosperidade e justiça. Poderia, mas não é. Porque a riqueza está nas mãos de poucos — e a pobreza, nas costas de muitos.
Criou-se aqui uma elite política que aprendeu o segredo da dominação: empobrecer para governar. Um povo com fome não pensa em política, pensa em pão. Um povo sem educação não entende o voto, apenas o vende. E assim se perpetua o ciclo: o político promete o mínimo, entrega o nada e cobra o máximo.
Hoje, o Brasil tem mais cargos públicos do que boa parte da Europa inteira — e menos resultados do que qualquer país que leva a sério o dinheiro do contribuinte. A máquina pública virou um monstro que se alimenta da própria ineficiência, sustentada por impostos absurdos e pela indiferença de quem já se acostumou com o absurdo.
O brasileiro, gentil por natureza, aprendeu a sorrir da própria desgraça. Faz piada da corrupção, aplaude quem o rouba, vota em quem o engana — e ainda se orgulha disso. O "jeitinho" virou cultura, e a resignação, religião.
Mas é preciso acordar. Porque um povo que dorme enquanto é saqueado não é apenas vítima — é cúmplice da própria ruína. O berço esplêndido já virou berço da miséria, embalado por discursos, promessas e bandeiras que se desbotam a cada eleição.
Talvez um dia, quem sabe, o Brasil desperte. Quando o povo compreender que o poder não está em Brasília, mas no voto consciente. Quando entender que patriotismo não é camisa da seleção, mas indignação com a injustiça. Quando perceber que riqueza de verdade não está no solo, mas na consciência.
Até lá, seguimos deitados. Eternamente.
Carlos de Castro
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